quinta-feira, 30 de abril de 2009

Atuação e permutas: conduta de gênero


Admitir a condição de nossa sexualidade é muitas vezes embaraçoso. Se nos posicionamos como heterossexuais, logo somos forçados a demonstrar que não mentimos. Os dispositivos provacionais para a heterossexualidade no contemporâneo vêem se sofisticando[?] e ganhando espaço, principalmente entre os jovens. Com excessão de movimentos menos bruscos na sexualidade, tais como emos [que admitem a bissexualidade com uma naturalidade quase normativa] ou punks [que por sua vez preferem a anarquia como parâmetro, não restando muitas restrições], a sociedade quer ver, com seus próprios olhos se seus rebentos não são "machos" o suficiente. Por quê, claro, ser homem, ou melhor, interpretar um homem exige um figurino, um roteiro e falas próprias para que não haja confusão e para que ao final o público possa aplaudir de pé.

Constitui-se ridículo evento a quebra do decoro fálico. Palavrões, por exemplo, sejam largamente admitidos nos scripts dos candidatos. Intolerância também não pode faltar-lhe e tem ele a obrigação de dar o troco na mesma moeda. A mulher, ah, a mulher! Deve ser sua serva e sua contraparte, seu avesso, sendo ele o mandatário e ela sua executora; sendo ele a brutalidade e ela a brandura e etc... não nos demoremos aqui, pois este roteiro nós o temos em mente mui bem, seja com indiferença ou pesar...

Se o macho resolver desenvolver em si a tolerância, se vestir-se de forma menos quadrática, se for mais compreensivo e amável, inclusive com sua esposa, copiando-lhe o feminíssimo hábito de cuidar da casa, estará com seus dias masculinos contados, pois não interpretou bem o seu papel. O público, quando apático ao péssimo espetáculo, deixa os assentos com pesar e lástima. Mas quando o publico se indigna do horror a que assiste, joga podres tomates, num ato de depreciação ao ator incompetente. Esqueceu o texto, e se não esqueceu, pior ainda, o omitiu.

Não se pode, segundo tal roteiro, ser macho longe de bares e, em bem menor grau, de prostíbulos. Pinga nossa de cada dia nos dai hoje para que possamos expurgar nossas angústias, mui custosamente contidas [e é assim que "beber para afogar [ou esquecer] as mágoas" ganha um efeito bem expressivo], permitindo que tenhamos a possibilidade de deixar a nós mesmos para habitar um mundo de narcose, mesmo que temporário e mesmo que tenhamos muita ressaca no dia vindouro.

Por outro lado, que estranho! Meninas ou mulheres são agora designadas como "nêgas". Deixaram de ser Maria, Joana, Lúcia, Andréia [e até mesmo "mulheres"] e passaram a ser tanto objetos tanto de prazer quanto parâmetros adotados a fim de medir quanto vale um homem. Jogamos estranho jogo pois no score [o número de negas contribui muito para uma boa colocação no ranking] de cada participante percebemos pontuações astronômicas sem, no entanto podermos localizar e identificar os jogadores. É um jogo de fantasmas e de sombras.

Se afirmamo-nos como bissexuais então somos indecisos ou covardes. No mundo hetero ou homo é comum ver os bissexuais como pesssoas de sexualidade cambaleante, são como pessoas ingênuas que ainda não sabem do que gostam [e que não soe estranho encontrarmos homens e mulheres, de 30 anos ou até mais, procurando satisfazer curiosidades emergentes]; como pessoas que sabem mesmo o que gostam mas que não sabem é como encarar o fato, inclusive perante a sociedade [é como se ele antevisse a fúria do público caso não interpretasse seu papel devidamente] e/ou usam seus encontros heterossexuais para contradosar os outros encontros, tal como se se encontrassem numa balança. Tais casos obviamente acontecem mas as minorias sabem melhor que as maiorias o quanto os rótulos costumam ser cruéis.

Se nos afirmamos homossexuais, então nos vêem como sapatões e 'viados [abreviação de "desviados", o que, em si, já sugere muito]. Os esteriótipos não são mais brandos neste caso e este é um motivo a mais para não dizer ao público qual papel interpreta. Mesmo os próprios homossexuais, e isto constitui fato curiosíssimo, confessam surpresa frente ao conhecimento de que certo alguém, aparentemente tão homem, seria homossexual. Decerto deveria ele usar vestido e maquiagem? A questão também abrange o outro extremo: quão censurável pode ser um ou uma homossexual com hábitos contrários aos respectivos gêneros? Fulana não deveria ser tão machona e Cicrano deveria rebolar menos.

Mas na verdade, frustados estamos ao nos darmos conta de que a gramática de "homossexualismo" é confusa [e quem sabe até do heterossexualismo também]. Ser homossexual pode significar: se sentir atraído sexualmente por outro do mesmo sexo; manter relações sexuais com os do mesmo sexo. Dentro desta bifurcação há confusão maior quando se leva em conta as variações decorrentes de cada caminho e de suas combinações. Logo, muitas vezes o uso do "homossexual" está em completa obscuridade. Além disso, o próprio fenômeno encontra-se ainda em densa névoa por parte do vulgo que se embaraça na tentativa de buscar-lhe esta ou aquela causa.

Consideremos o sentido mais simples e claro do termo [homossexual enquanto pessoa que sente atração e se relaciona com pessoas do mesmo sexo]. Prossigamos.

Constituindo grupo à parte, mais uma minoria, os homossexuais fazem questão de afirmar sua presença ignorando se ela é chocante ou não. Aqui fiz uma referência indireta mas que agora esclareço: Nanny People, artista conceituada até mesmo pela sua opinião elevada, não esconde de ninguém o que pensa da Parada Gay [Paulista, por certo]. Ao que parece foi sua mentora nos primórdios do evento, expressando por meio dele, reclamações políticas e legais. Ela nos coloca que hoje a festa já não tem mais esse sentido como baluarte, mas o lado cívico tornou-se mero acessório, talvez um pretexto mais sério para a realização do evento. O espírito gay não deve desaparecer das paradas: as cores e trajes berrantes, a música contagiante, a alegria e comicidade peculiares, a maneira positiva de encarar a vida, expressões de afetividade entre pessoas do mesmo sexo, enfim. Mas não deve ser a manifestação confundida com a causa pois as manifestações públicas são realmente meios válidos e autênticos de luta contra o preconceito.

Aliás, falar em preconceito nos meios Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais["GLBT", mais atualmente usado que o conhecidíssimo "GLS" [Gays, Lésbicas e Simpatizantes]] seria semelhante a entrar numa casa de espelhos, onde raios de desprezo se lançam de todos os lados para todos os lados causando distorções e produzindo figuras estranhas e disformes. Normalmente existem richas internas entre os grupos, ocorrendo até mesmo no seio dos próprios, onde existem por vezes a calúnia pelo cochicho. Alguns "discretos" por exemplo, odeiam as "bichinhas".

Portanto não faz sentido reclamar em manifestações vazias em política e mérito. É como se estivéssemos diante de uma "ética das reclamações" e nos inclinamos a dizer a atitude reflexionante foi deixada de lado. É mais fácil exigir do outro que me respeite sem que no entanto eu mova um dedo sequer para fazer-me respeitar: lembremo-nos: respeito não se ganha, se conquista.

O ou a homossexual é parte de minoria, mas não grupo parteado da espécie humana e da civilização. Há de se projetar uma assimilação dos mundos dissonantes, uma nova síntese, pois somos todos particulares na multidão eterna. O grande grupo deve, assim, assimilar digestoriamente o complexo que lhe é exterior.

Nesta discussão é interessante tratar dos armários que prendem ainda aqueles que possuem uma opção sexual incomum. Como poderíamos ver a situação? Uma perspectiva: a falta de autenticidade dos sujeitos levam-os a temerem represálias pelas suas formas de expressão frente à sociedade. A saída é infiltrar-se nela, fazer parte sem abrir mão da sua condição.

Deixemos a concha do partidarismo e mergulhemos no grande mar da diversa humanidade: manifestação consciente, futuro sem hermetismo.

3 comentários:

Lucia Fatima disse...

Que texto interessante,Val,parabéns!! Gosto muito dessa tematica.Precisamos dessas leituras pra termos argumentos pra combater o heterossexismo,que tanto mal causa a nossa sociedade.

Um forte abraço

Lucia de Fatima

Val Yagami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jota carlos disse...

pode crer val...
é isso mesmo, a sexualidade nao determina o carater dos individuos mais são os proprios q se limitam a uma cultura atrasadissima...
poderiam ele ler mais livros ao invez de perderem tanto tempo em mesas de bar... nao que eu nao var a um bar..mas existem outras coisas mais interesantes no nosso mundo pos-moderno...